segunda-feira, 11 de agosto de 2014
MP denuncia governo Alckmin e Fundação Casa e fala em "nova Febem"
Promotores dizem que a situação na fundação atingiu
“patamares inimagináveis”. Superlotação é tanta que menores estão sendo
liberados.
Moacyr Lopes Jr. / Folhapress
http://www.cartacapital.com.br/revista/812/ministerio-publico-denuncia-governo-alckmin-e-fundacao-casa-e-fala-em-nova-febem-9382.html
Policial militar agarra menor na rua Amaral Gurgel, no centro de São Paulo
A situação da
Fundação Casa atingiu “patamares inimagináveis”. A avaliação é do
Ministério Público de São Paulo. Na última quarta-feira 6, a Promotoria
de Justiça da Infância e Juventude da Capital denunciou na Justiça o
governo do tucano Geraldo Alckmin e a fundação, por conta da
superlotação nas unidades que aplicam as medidas socioeducativas para
menores detidos no estado. A reportagem de CartaCapital
teve acesso com exclusividade à ação civil pública e, segundo o
documento, 91,37% das “casas de internação” estão com um número de
adolescentes acima do limite máximo definido nas portarias
administrativas.
A informação é resultado de um
diagnóstico inédito da Promotoria, iniciado em março de 2013. Seis
promotores lideraram o trabalho: Tiago de Toledo Rodrigues, Pedro
Eduardo de Camargo Elias, Fábio José Bueno, Daniela Hashimoto, Santiago
Miguel Nakano Perez e Fabíola Aparecida Cezarini. Eles catalogaram o
número de menores internados nas unidades em cada visita mensal. Com
isso, o MP descobriu que 106 das 116 unidades de internação do estado
têm mais adolescentes do que podem abrigar. Foram contabilizadas 8.079
vagas em todo o sistema, enquanto a demanda é de pelo menos 9.549 vagas.
Isso quer dizer que o déficit hoje é de 1.470 vagas, equivalente a
18,19% do oferecido atualmente.
“A situação, de séria gravidade,
configura flagrante desrespeito aos direitos humanos dos adolescentes”,
diz o texto da ação. Em uma das unidades visitadas pelos promotores, a
superlotação era de 158,33% acima da capacidade. O flagrante foi feito
na unidade Sorocaba IV, no interior do estado. Com capacidade para
receber 24 internos, estava com 62 em abril. Na capital paulista, a
situação mais grave foi constatada na unidade Rio Paraná, no bairro do
Brás. Com espaço para 110 menores infratores, alocava 198 adolescentes –
também em abril.
O cenário, classificado pela Promotoria
como “calamitoso” e um “horror”, obrigou o órgão a pedir judicialmente
soluções em até um ano. Se aceita pela Justiça, a ação estipula que a
Fundação Casa tem seis meses para criar as vagas, de sorte a atender à
demanda excedente em seis meses, sob pena de multa diária de 10 mil
reais por vaga não oferecida. Foi pedido ainda o fechamento das unidades
e o afastamento provisório dos dirigentes da Fundação Casa, gerida
atualmente pela presidente Berenice Maria Giannella. Se não criar
nenhuma das vagas pedidas pelos promotores, o estado terá de pagar multa
de 14,7 milhões de reais por dia.
A ação determina ainda o prazo máximo de
um ano para a Fundação Casa adaptar todas as suas unidades, de acordo
com o que define o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente. O Conanda estabelece que 40 vagas é o máximo que cada
unidade deveria ter para garantir o caráter individual da
ressocialização dos adolescentes. “Uma unidade projetada para receber
110 menores, por exemplo, tem de ter em seis meses, no máximo, esses
110. Em um ano, tem de ser uma unidade só para 40 internos (número considerado ideal pelo Conselho)”, explica o promotor Pedro Eduardo de Camargo Elias.
Maus-tratos e multas milionárias
Essa
deve ser a maior dificuldade da gestão tucana para ajustar a antiga
Febem ao pedido da Promotoria. Do total de unidades superlotadas, só
quatro já têm como capacidade máxima o número de 40 internos. As outras
teriam de ser desmembradas para alcançar as condições mínimas para
recuperação do adolescente. A pena deve ser a mesma: multa diária de 10
mil reais por vaga não oferecida.
A conclusão dos promotores é de que, se continuar
do jeito que está, a Fundação Casa “acabará como uma nova Febem”. “Se a
Fundação Casa mantiver as coisas no curso atual, nós estamos
caminhando, sim, para um cenário em que a Fundação Casa voltará a ser
aquilo que era a Febem”, alerta o promotor Tiago de Toledo Rodrigues.
A comparação
encontra respaldo em diversos pontos da ação civil. Na ação está
descrito um quadro de “tensão ininterrupta” causado pela superlotação
das unidades. Faz parte do cotidiano dos menores, por exemplo, “dormir
na praia”, gíria interna que significa passar a noite no chão, muitas
vezes sem colchão. O mesmo acontece nas salas de aula. Todas foram
planejadas para receber um número máximo de internos. Não é o que
acontece. Segundo a Promotoria, isso pode afetar totalmente a
recuperação dos menores, que acabam não encontrando ajuda para não
voltarem a cometer crimes.
A situação é idêntica no refeitório, em
banheiros, áreas comuns e de lazer. São necessários rodízios no horário
do almoço, do banho e de todas as demais atividades rotineiras. Com
comida fria, sem banho e com problemas para fazer atividades físicas ou
de ressocialização, os adolescentes ficam estressados e,
consequentemente, os funcionários também. “O ambiente, inóspito,
diuturnamente dá causa a outros transtornos. Há crescente e
significativo aumento dos conflitos entre os adolescentes. Não raro
esses conflitos envolvem também funcionários que, igualmente, são
expostos a sérios riscos”, denuncia a ação do MP.
Libertação de menores
A reportagem também teve acesso a um
relatório feito pela primeira vez na mesma Promotoria sobre o processo
de liberação dos menores. De três em três meses, a Fundação Casa é
obrigada a fazer um relatório técnico sobre todos os adolescentes
internados. Neste documento, o órgão explica como está o processo de
ressocialização de cada um dos jovens e conclui se eles estão prontos
para voltar às ruas, se devem continuar em “tratamento” ou se podem
começar uma “desinternação progressiva”, situação na qual o jovem pode
passar para “Liberdade Assistida”, por exemplo.
Em julho, o Ministério Público analisou
todos os documentos que recomendavam a desinternação. Nesse período de
um mês, a Fundação Casa pediu a soltura ou relaxamento das medidas
socioeducativas para 273 adolescentes. Desse total, quase 95% é para
jovens com menos 13 meses de internação, quando cada adolescente pode
ficar até três anos no sistema. O caso levanta a suspeita de que a
Fundação Casa esteja liberando os adolescentes para evitar que o sistema
entre em colapso.
A ação foi entregue a CartaCapital
na mesma semana em que o governador Geraldo Alckmin foi a Brasília
justamente para pedir penas mais duras a menores infratores. Na
terça-feira 5, Alckmin encontrou-se com lideranças do PSDB na Câmara dos
Deputados para pedir votação com urgência para o projeto de seu colega
de partido que reduz a maioridade penal. Em caso de aprovação, o projeto
pressionaria ainda mais o sistema já saturado.
O fato é que a superlotação já tem
colocado na rua jovens que precisam passar por medidas socioeducativas
para se reintegrar à sociedade. Em março, um adolescente que havia sido
detido em uma delegacia de Dracena, no interior do estado, foi solto
depois de cinco dias, porque a Fundação Casa não tinha vaga.
Procurada pela reportagem, a Fundação
Casa informou que ainda não foi notificada da ação, mas argumentou que a
superlotação é culpa da Justiça paulista. “O excedente que existe na
instituição deve-se, principalmente, às exageradas internações.”
Procurado, o governo do estado não se manifestou sobre a ação do
Ministério Público.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Homens e mulheres que estão presos, mandem suas cartas para decifrarmos a caixa-preta das prisões. Já tenho 40
http://blogs.estadao.com.br/sp-no-diva/as-cartas-dos-presos-vao-ajudar-a-iluminar-a-caixa-preta-das-prisoes/
Já recebi algumas cartas de pessoas presas ao longo de minha carreira
como repórter. Quase nunca viraram notícias. Havia o argumento de que
eu poderia estar sendo usado pelos presos, o que era uma evidente
bobagem. Mas eram épocas complicadas, logo depois dos ataques do
PCC, quando os detentos eram pintados pelo Estado como espécies de Osama
Bin Laden pós 11 de setembro. O fato é que a criação desse clima
afastou os jornalistas de dentro dos presídios. Foi assim que eu e meus
colegas paramos de contar o que ocorria dentro das prisões, a não ser
quando se referia ao PCC, com informações que chegavam por intermédio
das autoridades cuja investigação parece se restringir às escutas
telefônicas.
Foi essa omissão forçada que permitiu às prisões se transformarem em
uma caixa-preta, onde vivem mais de 200 mil pessoas. Se considerar os
familiares dos presos, são mais de 1 milhão vivendo o cotidiano
desconhecido do sistema penitenciário. Trata-se de uma cidade do porte
de Campinas, que alguns acreditam formar uma realidade paralela, mas que
está totalmente interligada com nosso dia a dia. “Todas essas pessoas
merecem sofrer porque praticaram crimes”, vão dizer alguns. Esse é um
pensamento primário. Basta ver que o Primeiro Comando da Capital se
fortaleceu justamente porque havia essas sombras mal compreendidas. A
facção passou a ocupar o espaço abandonado pelo Estado, conquistando
legitimidade entre a massa carcerária, ao mesmo tempo em que organizava o
mercado de drogas em São Paulo e passava a fornecer para muitos estados
do Brasil.
O PCC ganhou força dentro e fora do sistema porque muitos acreditam
que é possível amontoar um monte de gente nos presídios e esquecê-los lá
dentro. Só que os efeitos colaterais foram se revelando com o tempo:
fortalecimento do crime e fragilidade do Estado. Há quase um ano São
Paulo bate recordes sucessivos de roubo, sem falar no crescimento
constante do mercado de drogas.
O jornalismo tem a obrigação de ajudar a lidar com o problema
mostrando ou discutindo o que ocorre nas prisões. Além de publicar
fotos, este blog vai divulgar o conteúdo de cartas de pessoas que estão
presas. Não se trata de dar publicidade a denúncias infundadas, mas de
dar vasão aos reclames feitos por presos cujos direitos são
desrespeitados. Muitos erraram e querem a reabilitação, oportunidade que
o Estado e a sociedade parecem se negar a conceder. Os gastos mensais
médios de R$ 2 mil por preso deveriam ser o bastante, mas esse dinheiro
parece se perder no fundo escuro da caixa-preta do sistema.
Como costuma afirmar a socióloga Julita Lemgruber, citando o
ex-ministro da Justiça inglês Thomas Hurd, trata-se da ”maneira mais
cara de tornar as pessoas piores”.
Seguem alguns problemas de dentro das prisões, que me chegaram por
meio de mais de 40 cartas. Também publico fotos inéditas dos presídios,
como a imagem abaixo, que mostra a superlotação em uma cela. É preciso
improviso para organizar os pertences. Os colchões são da espessura
mostrada na foto. Não vou dizer de onde são as fotos para preservar
minhas fontes. Se os juízes-corregedores e as autoridades dificultam a
entrada dos jornalistas nos presídios, que os presídios venham até os
jornalistas.
A maioria das cartas vem de Tremembé I e foram
escritas no começo de maio, antes do Dia das Mães. Trata-se de demandas
legítimas que devem ser observadas. A Pastoral Carcerária e a
Defensoria vão nos ajudar a checar a reclamação dos presos.
TREMEMBÉ I
1) Funcionários assediando sexualmente as visitas “com assovios,
olhares nas partes íntimas e palavras sexuadas”. Revistas humilhantes
aos familiares dos presos;
2) Falta água sempre. Não há água para beber, higiene pessoal. Quando
tem, a água é suja e causa diarreia, dá dor de cabeça e vômito. Direção
diz que bomba está quebrada. Será que a verba recebida para esse tipo
de serviço é usada?, questiona o preso;
3) Reclamações mínimas levam a direção ameaçar a levar os presos para “o pote” (castigo) ou para presídios longe da família;
4) Galpão onde os presos trabalham: há um cano de água estourado há
mais de três anos e da fenda do chão jorra grande quantidade de água
limpa, que vai direto para o bueiro. “Por que não dar essa água aos
presos em vez da água suja?”, questionam duas das cartas;
5) Em celas de 10 metros quadrados, onde antes cabiam no máximo dois
presos, hoje colocam seis. Nas camas não se pode nem sentar por falta de
espaço. Na hora da alimentação, o preso precisa comer de pé;
6) Não existe tratamento médico e dentário. Nas cartas, os presos
contam como tentam montar um plano odontológico por meio de pagamento a
dentistas e divisão das despesas com internos e famílias;
7) Proibido dar presentes aos filhos em datas festivas. Também é proibido às visitas ingressar com refrigerantes;
8) Revistas ao jumbo (produtos que os familiares são obrigados a
levar porque o oferecido pelo Estado é insuficiente) e às visitas tiram o
tempo de convívio com os detentos. Há mais de mil visitas e apenas duas
mulheres para fazerem a revista pessoal e duas para o jumbo. Visitas
chegam às 6h da manhã e só conseguem entrar na unidade às 12h;
9) Mortes por negligência médica;
10) Enfermaria com detentos despreparados. Faz pelo menos dois anos que falta médico e quatro pessoas morreram por causa disso;
11) Pertences das visitas somem;
12) Falta assistência jurídica e a burocracia da Justiça dificulta a
progressão de pena. Pedem semiaberto, por exemplo, demora meses na mão
do juiz. Quando retorna, é para afirmar que o preso esquecem de
preencher determinado item. O documento volta ao limbo burocrático;
13) Proibição de alimentos como milho, ervilha e salame, bolo sem
recheio na entrada, refrigerante, itens que são permitidos em outros
presídios;
14) Únicos remédios na unidade: Paracetamol em gotas ou Dipirona. São dados para todo tipo de doença;
15) Demora para entregar sedex e as cartas levam mais de 30 dias para chegar ao preso;
16) Agentes levam artesanatos feitos pelos presos embora e proíbem
que sejam feitas cortinas para o banho, que molha a cela e os colchões;
Penitenciária II Presidente Venceslau
1) Não tem estudo, trabalho, saúde e curso profissionalizante.
Benefício de pena é negado, afirmando-se que o preso não estuda nem
trabalha;
2) Exames criminológicos avaliam sentenciado em 5 minutos;
3) 4 horas de visitas, com funcionários vestindo toucas ninjas e armas. Visitas dentro da cela, sem parquinhos para crianças;
4) Presos buscam informações para montar ONG do tipo Afro Reggae para ajudar na ressocialização de presos;
Algumas dessas cartas são para as esposas. Quando percebe o futuro
encarcerado, longe da mulher e das crianças, alguns presos se derretem
em poesias e juras de amor, reconhecendo a importância da família e se
autopenitenciando pelas derrapadas do passado. Há espaço para
transformações, mas o Estado e a sociedade parecem se esforçar para
fechar todas as portas.
Publicarei novas cartas neste blog, conforme elas cheguem às minhas
mãos. Reclamações básicas, como a falta de espaço na foto acima,
que transforma o banheiro de 60 pessoas em depósito de alimentos. Está
enganado quem acredita que se esquecermos desse assunto, o problema
desaparece como num passe de mágica. São justamente as nossas sombras
mais escuras que precisam ser decifradas.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
CARTA DENUNCIA – ADOLESCENTES DA FEBEM RAPOSO TAVARES DENUNCIA VIOLÊNCIA QUE SOFREM
CARTA DENUNCIA – ADOLESCENTES DA FEBEM RAPOSO TAVARES DENUNCIA
VIOLÊNCIA QUE SOFREM
A Associação de Familiares e amigos de presos AMPARAR, constantemente recebe cartas-denuncia de adolescentes e adultos presos no Sistema Penal do estado de São Paulo.
A Unidade da Fundação Casa - Jatobá, localizada no Km19,5 da Rod Raposo Tavares, já foi denunciada intensamente não só pelos adolescentes, mas também por familiares e associações de direitos humanos. O Subcomitê de prevenção a tortura da ONU, visitou esta unidade em 2011, após as torturas que os adolescentes vinham vivenciando.
Depois da visita, a ONU publicou relatório solicitando mudanças no cotidiano na Unidade ( http://www.onu.org.br/relatorio-do-subcomite-de-prevencao-da-tortura-spt-esta-disponivel/) Porém, diante desta e tantas outras denuncias, temos observado que o contexto de tortura contra os adolescentes não tem cessado.
Segue a transcrição de mais uma carta-denuncia dos adolescentes da Unidade Jatobá, recebida em maio/2014 pela associação.
Diretamente do complexo raposo
tavares quem vem invadindo essa
transportadora de palavra é mais um adolescente que esta sofrendo diversos
tipos de opressões (psicológico, física, de se expressar, de se locomover),
diversos adolescentes tão todo machucado e o adolescentes XXXX que esta sem
dente eles não que dar atenção e o adolescente senti muita dor não conseguindo
comer e a diretora entro de férias e estão vindo com varias maluquice nois se
encontramos de tranca falaram que nois ia ter aula um dia sim e outro não eles
quebrram as cadeiras pá fala que ta faltando cadeira tão deixando nóis sem aula
e sem cursos nossos direitos não tão sendo compridos que é a escola e os cursos
tamo sendo agredido todos os dias pelo funcionário ate tamo tenho meia hora de
visita precisamos da sua ajuda de vocês.
Temo direitos de ver nossa
namorada tao deixando ver dia sim outra semana não precisamos que vocês nos
ajuda que vocês do forum converse com esses funcionários que todos sábados ou
ate mesmo os domingos nois ver a pessoas que nois amamamos peço ajuda de vocês
que nos ajudasse. Obrigado. Adolescente.
Preciso que nos ajudamos porque
tamo apanhando todos os dias dos funcionários principalmente do funcionário se
ates ele bate muito na gente aqui na UI jatobá por favor ajuda nois obrigado
Precisamos das suas ajudas vocês
do forom obrigado contamos com suas ajuda
quarta-feira, 9 de abril de 2014
FEBEM/FUNDAÇÃO CASA, TORTURA E O CASO UNIDADE RAPOSO TAVARES
FEBEM/FUNDAÇÃO CASA, TORTURA E O CASO UNIDADE RAPOSO TAVARES
Em junho 2011, diversas denúncias sobre práticas de tortura contra os adolescentes da Unidade de internação Jatobá (localizada na Rodovia Raposo Tavares km 19) vieram à tona por meio de cartas escritas pelos próprios adolescentes sobre o violento cotidiano vivenciado, marcado por socos e chutes por parte dos funcionários, a mando da direção.
Familiares e movimentos sociais não se calaram diante de tamanha brutalidade e violação de direitos. Denunciaram constantemente aos órgãos nacionais e internacionais e promoveram ainda atos e falas públicas em eventos de direitos humanos. O caso ganhou destaque em vários meios de comunicação, que deram espaço para que a questão da FEBEM/Fundação Casa retornasse e ficassem menos escondidas as barbáries que ocorrem do lado de dentro dos muros. Apesar das diversas ameaças, constrangimentos e assédios morais impostos pelos funcionários, as famílias denunciantes se mantiveram firmes e deram continuidade às denúncias.
A luta em defesa da vida e da integridade física e psíquica dos adolescentes rendeu a visita do Subcomitê de prevenção d a tortura da Organização das Nações Unidas (ONU), cujos membros comprovaram as denúncias e sugeriram que o país e o Governo do Estado assumissem a responsabilidade de promover ações que alterassem o quadro de brutalidade vivida no complexo.
A diretora da época (apresentada pelas cartas dos adolescentes com o nome de Tânia) foi afastada de seu posto e substituída por Fábio, que se autodenomina “Fábio Capeta” aos adolescentes. Com a continuidade das denúncias, Fábio também saiu, mas foi encaminhado para outras unidades da Fundação Casa, chegando a responder pela direção de uma das unidades do ABC. Também foi denunciado, mas nada de fato foi solucionado.
Sob a batuta do Governo do Estado, as denúncias das violências e abusos cometidos na FEBEM/Fundação Casa têm servido, na verdade, para “sancionar” funcionários e diretores torturadores com promoções a cargos mais altos ou transferências a outras unidades, o que evidencia a principal, e não declarada, política pública das esferas federal e estadual para a juventude: o encarceramento em massa e a tortura.
Em meio a este cenário, em 24 de fevereiro de 2013, após situação conflito na Unidade Jatobá, 11 jovens que já contavam mais de 18 anos de idade foram acusados pelos funcionários de tentativa de homicídio contra um funcionário e encaminhados para o CDP de Osasco, onde estão até hoje, com audiência de instrução e julgamento marcada para 10 de abril.
O caso da Unidade Jatobá é representativo do que ocorre em todo o sistema de internação infanto-juvenil. No próximo dia 10 de abril, uma vez mais jovens violentados durante a vida inteira estarão no banco dos réus, submetidos ao julgamento de uma “Justiça” que, contra eles, permite todo tipo de atrocidades, ao mesmo tempo em que criminaliza, severamente, qualquer tentativa de resistência contra essas violações.
Estamos atentos a esse julgamento, cientes de que, na luta pelo fim dos massacres contra a nossa juventude preta, pobre e periférica, também os Tribunais são reprodutores da política de encarceramento e extermínio juvenis e, portanto, objetos de denúncia e de enfrentamento.
AMPARAR- Associação de amigos e familiares de pres@s
Associação Franciscana de defesa de direitos e formação popular
Instituto Práxis de Direitos Humanos
Mães de Maio
Rede 2 de Outubro
Tribunal Popular
UNEafro Brasil
sexta-feira, 4 de abril de 2014
O CARANDIRU É AQUI
Nunca é demais relembrar: em 2 de outubro de 1992, mais de trezentos policiais militares invadiram a Casa de Detenção e exterminaram ao menos 111 homens desarmados e rendidos. Muitos sobreviventes e jornalistas presentes no dia afirmam que o número é subnotificado e que, na verdade, cerca de 250 homens foram executados. Foi a maior chacina da história do sistema prisional brasileiro.
Após quase 22 anos, encerrou-se, em primeira instância, o julgamento dos policiais envolvidos. Foram 77 policiais condenados no que é considerado o maior júri da história do tribunal paulista.
Pouca coisa, no entanto, muda com o desfecho provisório do processo do Massacre do Carandiru.
De um lado, é necessário sempre lembrar que Antônio Fleury Filho e Pedro Campos, mandantes do Massacre, não foram sequer processados, fato que respalda as autorizações para matar que até hoje governantes cedem aos policiais sob sua autoridade.
De outro lado, é importante reafirmar que esse Judiciário que condenou, duas décadas depois, e ainda em caráter provisório, parte dos policiais envolvidos com o Massacre do Carandiru é o mesmo Judiciário que, diariamente, condena centenas de jovens pobres e pretos ao cumprimento de longas penas em prisões superlotadas e degradantes e mantém presas provisoriamente quase 100 mil pessoas que sequer têm condenação definitiva.
Não é possível celebrar a suposta “justiça” desse Judiciário que, para além de chancelar o encarceramento seletivo e em massa, ignora as diversas denúncias de tortura contra presos e se esquiva, descaradamente, do dever de fiscalizar e de combater as condições degradantes das prisões paulistas.
Nada a celebrar diante do aumento de cerca 400% da população carcerária desde 1992, contra 30% da população em geral, e da multiplicação de famílias que, como os familiares dos exterminados na Casa de Detenção, são penalizadas junto com seus entes queridos presos e, na tentativa de ampará-los, são submetidos a diversas violações.
Esse mesmo Judiciário que aprisiona em massa, prevarica na atribuição de monitorar as condições materiais dos presídios e é conivente com a tortura, também faz vistas grossas às sistemáticas revistas vexatórias, violência sexual praticada contra mulheres e crianças que, com muito esforço, se deslocam por centenas de quilômetros para visitar seus parentes presos.
Desse modo, apesar da importância histórica do reconhecimento judicial, ainda que tardio, do Massacre do Carandiru, não nos iludimos com as possibilidades de construir justiça dentro do sistema penal, que é nítida e inescapavelmente voltado à manutenção e ao aprofundamento das desigualdades produzidas pelo sistema capitalista.
A longa caminhada pelo fim dos massacres é pavimentada, cada vez mais, pela convicção de que as lutas para incidir nas estruturas que permitem massacres como o do Carandiru não cabem nos tribunais.
Renovamos a nossa aposta de que a derrocada dessa ordem que se sustenta a partir do extermínio do povo pobre e negro, nos dois lados do muro, e no dia a dia, e da qual o Massacre do Carandiru é produto e expressão, somente se dará com a organização popular e autônoma para resistir e lutar contra esse Estado Penal e contra as classes abastadas que dele se valem para manter seus domínios.
REDE 2 DE OUTUBRO
PELO FIM DOS MASSACRES
POR UMA VIDA SEM GRADES E SEM OPRESSÕES
Nunca é demais relembrar: em 2 de outubro de 1992, mais de trezentos policiais militares invadiram a Casa de Detenção e exterminaram ao menos 111 homens desarmados e rendidos. Muitos sobreviventes e jornalistas presentes no dia afirmam que o número é subnotificado e que, na verdade, cerca de 250 homens foram executados. Foi a maior chacina da história do sistema prisional brasileiro.
Após quase 22 anos, encerrou-se, em primeira instância, o julgamento dos policiais envolvidos. Foram 77 policiais condenados no que é considerado o maior júri da história do tribunal paulista.
Pouca coisa, no entanto, muda com o desfecho provisório do processo do Massacre do Carandiru.
De um lado, é necessário sempre lembrar que Antônio Fleury Filho e Pedro Campos, mandantes do Massacre, não foram sequer processados, fato que respalda as autorizações para matar que até hoje governantes cedem aos policiais sob sua autoridade.
De outro lado, é importante reafirmar que esse Judiciário que condenou, duas décadas depois, e ainda em caráter provisório, parte dos policiais envolvidos com o Massacre do Carandiru é o mesmo Judiciário que, diariamente, condena centenas de jovens pobres e pretos ao cumprimento de longas penas em prisões superlotadas e degradantes e mantém presas provisoriamente quase 100 mil pessoas que sequer têm condenação definitiva.
Não é possível celebrar a suposta “justiça” desse Judiciário que, para além de chancelar o encarceramento seletivo e em massa, ignora as diversas denúncias de tortura contra presos e se esquiva, descaradamente, do dever de fiscalizar e de combater as condições degradantes das prisões paulistas.
Nada a celebrar diante do aumento de cerca 400% da população carcerária desde 1992, contra 30% da população em geral, e da multiplicação de famílias que, como os familiares dos exterminados na Casa de Detenção, são penalizadas junto com seus entes queridos presos e, na tentativa de ampará-los, são submetidos a diversas violações.
Esse mesmo Judiciário que aprisiona em massa, prevarica na atribuição de monitorar as condições materiais dos presídios e é conivente com a tortura, também faz vistas grossas às sistemáticas revistas vexatórias, violência sexual praticada contra mulheres e crianças que, com muito esforço, se deslocam por centenas de quilômetros para visitar seus parentes presos.
Desse modo, apesar da importância histórica do reconhecimento judicial, ainda que tardio, do Massacre do Carandiru, não nos iludimos com as possibilidades de construir justiça dentro do sistema penal, que é nítida e inescapavelmente voltado à manutenção e ao aprofundamento das desigualdades produzidas pelo sistema capitalista.
A longa caminhada pelo fim dos massacres é pavimentada, cada vez mais, pela convicção de que as lutas para incidir nas estruturas que permitem massacres como o do Carandiru não cabem nos tribunais.
Renovamos a nossa aposta de que a derrocada dessa ordem que se sustenta a partir do extermínio do povo pobre e negro, nos dois lados do muro, e no dia a dia, e da qual o Massacre do Carandiru é produto e expressão, somente se dará com a organização popular e autônoma para resistir e lutar contra esse Estado Penal e contra as classes abastadas que dele se valem para manter seus domínios.
REDE 2 DE OUTUBRO
PELO FIM DOS MASSACRES
POR UMA VIDA SEM GRADES E SEM OPRESSÕES
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Julgamento do Carandiru tem 73 PMs condenados por mortes de 77 presos
Do UOL, em São Paulo
Dividido em quatro etapas por ter um grande número de réus e vítimas, o júri foi iniciado em abril de 2013 e terminou na noite desta quarta-feira (2), no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste da capital paulista). Cada fase do julgamento teve um grupo diferente de jurados e correspondeu a um dos quatro andares do pavilhão 9 da Casa de Detenção, onde 111 presos foram mortos quando a PM entrou no presídio para conter uma rebelião, em 1992.
Ampliar
2.ago.2013
- Plenário do Fórum Criminal da Barra Funda, na capital paulista, onde
acontece o último dia da segunda parte do julgamento do massacre do
Carandiru. São julgados os 25 PMs acusados da morte de 73 presos que
estavam no terceiro pavimento da antiga Casa de Detenção. A sentença
deve ser divulgada na madrugada deste sábado (03) Leia mais Reprodução
Os jurados aceitaram a proposta da promotoria e condenaram os PMs em todas as quatro etapas do julgamento.
Na primeira delas, em abril de 2013, 23 policiais militares foram condenados a 156 anos de prisão pelas mortes de 13 presos no primeiro andar (segundo pavimento) do pavilhão 9.
A segunda etapa, realizada em julho do ano passado, resultou na condenação de 25 PMs da Rota (tropa de elite da polícia paulista) a 624 anos de prisão pelas mortes de 52 homens no segundo andar (terceiro pavimento) do pavilhão.
Já em 2014, a etapa relacionada ao terceiro andar (quarto pavimento) chegou a ser iniciada em fevereiro, mas foi cancelada porque o advogado de defesa deixou o plenário durante o julgamento, o que levou à anulação dos trabalhos. Remarcado para esta semana, o júri foi concluído hoje com a condenação de 15 PMs do COE (Comando de Operações Especiais) a 48 anos de prisão pelas mortes de quatro detentos --constavam da acusação oito mortes e duas tentativas de homicídio, no total, mas a promotoria pediu que os réus fossem absolvidos de quatro dessas mortes, provocadas por armas brancas, e das duas tentativas de homicídio pois não haveria como associá-las à ação dos policiais.
A quarta etapa, relativa ao quarto andar (quinto pavimento) do pavilhão 9, acabou sendo realizada antes da terceira, em março deste ano, com a condenação de dez policiais militares a penas entre 94 e 104 anos de prisão pelas mortes de oito presos.
Todos os PMs ainda podem recorrer e permanecem em liberdade até que seja esgotada qualquer possibilidade de recurso na Justiça.
Das 111 mortes no Carandiru, 34 ficaram fora desse julgamento, considerado o maior da história do judiciário brasileiro. Cinco delas, provocadas por arma de fogo, seriam imputadas exclusivamente ao coronel Luiz Nakaharada, mas o policial militar morreu em dezembro de 2013, antes de ir a julgamento. As outras 29 (por armas brancas e armas de fogo) não tiveram a autoria reconhecida, não podendo, assim, ser atribuídas aos PMs que entraram no pavilhão 9 do Carandiru.
Julgamento do massacre do Carandiru - 13 vídeos
Assinar:
Postagens (Atom)



